Amesterdão Vs Lisboa: 10 grandes diferenças vistas pelos olhos de um ciclista

Recentemente estive em Amesterdão em trabalho. Não foi a primeira vez. É até uma das cidades europeias que mais visitei nos últimos anos. Por ser muito central na Europa e ter uma interculturalidade grande, associada a vários espaços adequados a conferências e seminários, e com uma zona central da cidade cheia de cultura, história e turismo, Amesterdão é uma cidade perfeita para encontros europeus dos mais diversos tipos. Mas para quem conhece a cidade sabe que uma das coisas que se destaca imediatamente são as bicicletas. Elas estão por todo lado, é impossível ficar indiferente, até porque se o fazemos arriscamos a levar com uma em cima quando andamos pela cidade. Sendo a minha primeira visita depois de ter começado a usar bicicleta em Lisboa, foi inevitável fazer comparações com a nossa capital. Pensei que nada melhor do que sistematizar essas diferenças através de um post e assim partilhar convosco a minha perspectiva.

Então lá vai: As 10 grandes diferenças entre Amesterdão e Lisboa, pelos olhos de um ciclista

 

1. As bicicletas

Tinha que começar com este ponto. Sim… As bicicletas são logo a principal diferença de destaque. Elas estão por todo o lado em Amesterdão e são para todos os gostos, tamanhos, idades e feitios. É impossível não reparar nelas, pois fazem parte da paisagem da cidade. Ao contrário, em Lisboa a bicicleta é ainda uma curiosidade. Chama a atenção quando vemos alguma (pequena) aglomeração de bicicletas estacionadas em Lisboa. Relembro que os primeiros pontos de bicicletas partilhadas em Lisboa apareceram em 2017. Em Amesterdão acho que chamaria a atenção um local em bicicletas 🙂

2. A cultura e o Lifestyle

A bicicleta em Amesterdão faz parte da cultura e do lifestyle da cidade. É um dos ícones da cidade e é explorado no turismo, através da marca da bicicleta em tudo, desde t-shirts a canecas, passando por anéis, posters, sacos, etc. etc. Existem lojas de bicicletas e afins. Encontrei até uma loja que tinha produtos reciclados, feitos a partir de bicicletas velhas, como candeeiros ou cintos. A bicicleta está para Amesterdão como a sardinha está para Lisboa. Ontem, aproveitei o regresso do bom tempo para fazer um pouco de turismo em Lisboa e fiquei com a noção de que um transporte está igualmente a começar a fazer parte da paisagem em Lisboa, infelizmente com muito menos impacto positivo: o Tuk Tuk!

3. A adaptação à bicicleta dos espaços públicos

É verdade que Lisboa tem feito um esforço grande nos últimos tempos para adaptar os seus espaços transitáveis à bicicleta mas, ao andarmos pela cidade, temos a sensação que as ciclovias são “forçadas” ao espaço. É quase um acrescento não natural às estradas existentes. Claro que isto se deve ao facto das estradas não terem sido pensadas para partilharem diferentes tipos de transporte, assim como a bicicleta. Mas, se pensarmos bem, temos essa adaptação bem conseguida, e até turística, dos eléctricos. Basta pensar no famoso 28, que percorre zonas bem estreitas, parecendo perfeitamente integrado pelas diferentes ruelas da cidade. Em Amesterdão, é como se as estradas não fizessem sentido sem as ciclovias. Depois, vemos ciclovias que foram feitas especificamente para ligarem partes das cidades, onde os carros não vão. Desta forma, o uso da bicicleta é, claramente, uma vantagem para ir do ponto A ao ponto B na cidade.

4. Rácio bicicleta/habitante

Existem mais bicicletas em Amesterdão do que pessoas. Todas as pessoas tem uma ou mais e usam-nas diariamente. Não acredito que as casas estejam preparadas para ter bicicletas no seu interior, até porque fiquei com a sensação de que muitas, se não a maioria, são guardadas na rua. Amesterdão e Lisboa são igualmente cidades antigas e o espaço é precioso. Basta ver pela arquitectura das casas que não é difícil perceber que a a questão “não tenho onde guardar a bicicleta” seja impeditiva para estes holandeses de Amesterdão.

5. A limpeza das ruas

Amesterdão não é das cidades mais limpas que já visitei. Ljubljana, a capital da Eslovénia, continua a estar, para mim, em destaque. Mas impressiona o cuidado que existe com o aspecto dos espaços públicos. Lisboa tem igualmente feito um grande esforço neste sentido. E, de facto, quanto mais cuidado é o espaço público, mais apetece desfrutar destes espaços, seja a pé, seja de bicicleta.

6. O tipo de bicicletas

O tipo de bicicletas que vemos em Amesterdão destaca-se pelo seu aspecto utilitário. Estas bicicletas foram feitas para serem práticas e duráveis. Dá para perceber que, estando a maioria do tempo na rua, estas bicicletas são feitas para durar. E carregar coisas… E é neste aspecto que acho que se destacam mais pelo seu aspecto. Era frequente ver pessoas a passar com um caixote de fruta acoplado no guiador da bicicleta, para que nele se colocasse malas, livros, computador, cão, compras, etc. Tudo pode ser transportado nestas autênticas “mulas” de transporte. E claro, para quem já passou por esta cidade deve, com certeza, lembrar-se daquelas bicicletas com uma caixa de madeira à frente, enorme, que mais parece um carrinho de mão das obras, adaptado a uma bicicleta. São máquinas impressionantes.

Em Lisboa continuamos a ver muito o tipo de bicicletas com aspecto mais “desportivo”, como as bicicletas de montanha ou de recreio. Um caminho a percorrer…

7. O terreno

Bom, não sendo um factor de exclusão, tenho que admitir que o facto de Amesterdão ser uma cidade essencialmente plana ajuda a que o uso de bicicletas seja mais fácil. Mas por outro lado, Lisboa bate Amesterdão aos pontos, se pensarmos que temos muito melhor tempo que os holandeses. Portanto, o que eles ganham em rectas, nos ganhamos em sol. Não é desculpa dizer-se que Lisboa não é adaptável à bicicleta porque é cheia de colinas. Existem vários estudos que indicam que Lisboa é “ciclável” em grande parte da sua extensão, desde que se faça uma escolha inteligente dos itinerários.

8. Os transportes públicos

Bom, se cada pessoa em Amesterdão tem uma bicicleta e a usa… Combinar a bicicleta com o transporte público não é, simplesmente, uma questão. Ou existem, por todo o lado, parques para deixar as bicicletas, ou, para os transportes que tem espaço para isso, as bicicletas são simplesmente transportadas. E isto inclui comboios ou barcos (de relembrar que Amesterdão está construída sobre uma série de canais). Em Lisboa notamos que ainda é difícil para adaptar o uso de transportes públicos à bicicleta, seja por limitações muito restritivas ao número de bicicletas por transporte, a não permitirem o transporte de bicicletas, de todo, à não existência de parques seguros e bem adaptados para deixar as bicicletas e seguir de comboio, metro ou autocarro.

9. Para o menino e para a menina, para o jovem ou para o velhinho

A bicicleta é usada por todos… Ponto final! Sei que já mencionei isto anteriormente, mas é mesmo muito interessante vermos que as pessoas usam a bicicleta em Amesterdão, independentemente da sua idade, estatuto social, ou forma física. Não é incomum vermos muitos “avozinhos e avozinhas” a circular tranquilamente nas suas bicicletas, alguns com o evidente esforço causado pela idade. Mas também, algo que se destaca, é a aparência saudável desta teste. É difícil ver pessoas que não pareçam minimamente saudáveis. Não digo que estamos na Meca de pessoas em forma, mas nota-se que o hábito de circular com bicicleta tem um efeito benéfico para a saúde e para o controlo de peso desta população. É também curioso ver que as crianças, desde muito pequenas, começam a ser transportadas nas bicicletas. Desde muito pequeninas, mesmo. Crescer assim só faz com que o uso da bicicleta lhes pareça algo muito natural.

10. A mentalidade

Acho que esta é a principal diferença. A mentalidade sobre o uso da bicicleta. E mentalidades demoram o seu tempo a mudar. Uma colega, durante esta viagem, dizia-me que tinha medo de usar bicicleta em Lisboa. Apesar de o trajecto que tem de casa ao trabalho já ser servido com algumas ciclovias, dizia que ainda sentia medo de circular em algumas estradas onde tinha que circular no meio do trânsito. E acho que isto é compreensível. Muitos condutores acham que a bicicleta na estrada é um empecilho, está ali para fazer perder tempo. Isto faz com que a relação condutor-ciclista ainda não seja das mais cordiais. Mas as próprias pessoas que se passeiam pelas ciclovias, sem se perceberem que estas vias existem por uma razão, faz com que se perceba que as pessoas não estão habituadas à convivência com este meio de transporte. Em Amesterdão é exactamente o contrário. São as pessoas que pisam as ciclovias e que não tomam atenção às bicicletas que estão fora do seu habitat. E podem mesmo ser atropeladas por isso.

Mas tudo tem o seu percurso para ser feito. A bicicleta está para Amesterdão como o fado está para os lisboetas. Pode ser que daqui a uns anos a bicicleta passe também a ser um marco da nossa cidade.


O Bike.POP divulga experiências e textos de autores que contribuem para a desmistificação da utilização da bicicleta na cidade, bem como promoção de uma mobilidade mais sustentável. Os textos são livres e isentos de edições, ficando inteiramente ao critério e discrição da pessoa.

Bruno Brito tem 41 anos e é cliente do Bike.POP. Apesar de sempre ter usado bicicleta em lazer, só em 2016 começou a usá-la como transporte para o trabalho e na vida do dia-a-dia. Rapidamente se tornou num entusiasta deste meio de transporte, especialmente da versatibilidade que as bicicletas dobráveis Brompton permitem. O seu interesse por bicicletas e pela adaptação do seu estilo de vida, levou Bruno a partilhar as suas experiências com o Bike.POP!

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