De Faro para a Praia

O tempo já convida a sair porta fora e a colocar as duas rodas no solo. O confinamento obriga a uma fuga. O vento na cara, o som da bicicleta e dos pneus a rasgarem o solo e por vezes, se a sorte surgir, apenas nós e o asfalto por diante.

A minha última aventura foi rejuvenescedora. Já não ia a Faro há algum tempo e a cidade que tantas vezes me acolheu pareceu-me o local ideal para matar as saudades que tinha de uma volta de bicicleta com rumo à Praia de Faro.

Para quem nunca o fez, o percurso exige alguma cautela uma vez que a maioria das vias de acesso para entrar e sair da cidade são compostas de múltiplas faixas de rodagem. Não é – ainda – uma zona totalmente amiga do meio de transporte mais eficiente e que mais benefícios traz à saúde, ambiente e à sociedade.

Isso não me demoveu e estava convicta que seguindo as precauções necessárias conseguiria sair do centro da cidade e fazer algumas paragens pelo caminho, com o olho no prémio: eu e o areal.

A Capital do Sul

O Algarve significa muita coisa para muitos de nós. Quer vivamos na região ou vejamos apenas o local de eleição para férias, vejo nele um misto de todas as coisas belas que o compõem, bem como dos contrastes que o constroem.

Basta escolher um ponto cardeal e a paisagem muda radicalmente. Dos recônditos de Estoi aos convidativos fins de tarde junto a Tavira, há sempre algo de mágico em qualquer altura do ano. Pedalar por aqui é um verdadeiro prazer que nos enche o peito. É um país inteiro concentrado numa única região! Montanhas ou planícies, campo ou praia, mar, rios ou lagos, florestas ou pradarias! Cada dia de bicicleta é uma aventura num mundo diferente.

A capital do Algarve é tudo menos consensual, com uma arquitetura que nem sempre prima pelo atrativo, mas onde o clima ameno e a simpatia dos locais lhe acrescentam alma. O contraste entre o betão e as casas antigas das zonas históricas promove a um debate interessante. Comecei a minha volta precisamente pelas suas ruas em horas de pouco trânsito. A zona velha da cidade e a Sé nunca deixam de me surpreender pela positiva e foi logo ali que parei para um revigorante café antes de seguir viagem.

Para quem viva aqui, a surpresa é menor. O clima é um dado adquirido, mas com alguma mobilidade, existem sempre argumentos de peso para comprar uma casa por estas paragens para mais que simples férias. O Algarve não é apenas o parque de diversões dos veraneantes: é um estilo de vida. Felizmente, um estilo de vida que ainda sai mais barato do que viver em Lisboa, por exemplo. E, claro, uma aposta na saúde!

Em Rota Para a Ilha de Faro

A viagem não é enorme, mas a configuração é plana. Como mencionei, exige alguma atenção. Do centro da cidade apontamos ao Aeroporto. Passamos pela zona comercial do Fórum Algarve e o espaço existente na estrada que liga os dois pontos chega para automóveis e para nós. Com muitos automobilistas estrangeiros, o respeito mútuo é notório.

Alguns quilómetros mais à frente, o cenário muda e a estrada encurta. Estamos finalmente sós, enquanto a estrada nos leva em redor da pista de aterragem e mais um avião toca o solo algarvio.

Daqui, a Ria Formosa já se faz ver e bem merece um desvio para lhe conhecermos os acessos, muitos deles em terra batida. Parar por aqui para respirar um pouco de ar puro partilhado com o som dos aviões é uma experiência de dois mundos opostos que se complementam.

Não estamos longe. Pedalando mais uns minutos, a estrada serpenteia a caminho da ponte que liga à ilha. De um lado Ria, do outro mar. É impossível ficar indiferente a um local que parece perfeitamente desenhado para nos agradar. E, por um momento, é todo meu!

Já ilha fora, a estrada é longa mas sem saída. No final, encontramo-nos na Praia de Faro Este. Deixo a bicicleta em segurança, pois daqui até à ponta do areal da Praia dos Aliados ainda podemos caminhar. Como recompensa, os pés enterram-se na areia fina do Algarve.

Para quem nunca se aventurou por estas paragens, quem diria que da cidade ao paraíso bastava tão pouco? A viagem de regresso tem outro prémio em vista: um jantar pela zona da baixa da cidade.

O Algarve é muito mais que “praia e noites longas”!